Um matemático que trabalha em uma possível solução para o Problema do Milênio de Navier-Stokes passou a questionar publicamente se a OpenAI teve acesso a rascunhos armazenados no Codex.
A suspeita surgiu depois que a empresa entrou em contato e informou que talvez tivesse chegado a uma solução própria para o desafio.
O caso envolve Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York (NYU), e Levent Alpöge, anteriormente ligado à Anthropic.
Os dois divulgaram conclusões relacionadas a equações de dinâmica de fluidos, enquanto a OpenAI também passou a trabalhar no mesmo problema.
- Leia também: OpenAI pode ter concluído modelo de IA com 10 trilhões de parâmetros próximo do "limiar da AGI"
Em jogo estão prestígio acadêmico e credibilidade em torno de um dos desafios mais conhecidos da matemática moderna.
O que é o Problema do Milênio de Navier-Stokes
Navier-Stokes é um dos Problemas do Milênio ainda sem solução do Clay Mathematics Institute. Cada problema oferece um prêmio de US$ 1 milhão, cerca de R$ 5,08 milhões pela cotação atual do dólar.
As equações de Navier-Stokes foram escritas em 1822 e descrevem o movimento de fluidos, como água, ar, fumaça, mel e óleo. Elas são usadas em áreas que vão da previsão do tempo ao projeto de aeronaves.
A grande questão é que os matemáticos ainda não conseguiram provar se essas equações funcionam de forma consistente em todos os cenários.
Por causa da turbulência presente na dinâmica dos fluidos, falta uma prova para uma pergunta básica: as equações sempre produzem uma solução suave e fisicamente plausível ou, em determinadas condições, podem chegar a um valor impossível, como o infinito? Esse é o centro do problema.
Buckmaster e Alpöge avançam em equações relacionadas
Buckmaster e Alpöge publicaram trabalhos que demonstram "blow-up em tempo finito, com forçamento suave" em equações relacionadas às de Navier-Stokes: meios porosos incompressíveis, Boussinesq e Euler incompressível em três dimensões.
Na interpretação apresentada, esses casos mostram que equações desse tipo podem falhar sob certas condições. Mesmo com um início suave, a solução pode deixar de permanecer regular depois de um intervalo finito.
Terrence Tao, professor de matemática da UCLA, comentou o trabalho:
"Uma conquista notável: Alpöge e Buckmaster conseguiram levar adiante uma das principais abordagens promissoras para construir soluções com blow-up em equações de fluidos, desenvolvida por Cordoba e Martínez-Zoroa, para estabelecer blow-up em tempo finito em várias equações centrais de fluidos..."
A suspeita sobre dados armazenados no Codex
A controvérsia começou quando Buckmaster contou, em uma publicação no Mastodon, que a OpenAI entrou em contato com ele e informou que poderia ter resolvido o problema de Navier-Stokes.
Segundo Buckmaster, ele questionou a empresa sobre o uso das sessões mantidas no Codex:
"Perguntei se o modelo havia sido treinado com, ou tinha acesso, às nossas sessões no Codex, nas quais colocamos todos os nossos rascunhos durante este projeto. Disseram que o modelo não consultava dados de usuários. Perguntei novamente, desta vez sobre treinamento, e não recebi resposta."
Também apareceu uma crítica dura às empresas do setor:
"Eu teria pouca dúvida de que eles teriam acesso. Essas empresas não têm escrúpulos. Você talvez não queira ouvir isso, mas esse é o preço que vai pagar por vender sua alma ao diabo. O diabo vai cobrar o acordo."
Buckmaster e Alpöge mantiveram seus rascunhos no Codex e passaram a suspeitar que esse material poderia ter sido usado pela OpenAI no desenvolvimento de uma solução própria.
Na resposta inicial, a empresa disse que o modelo não consultou dados de usuários, mas não esclareceu naquele momento se informações derivadas dessas sessões haviam sido usadas no treinamento.
Diante da dúvida, permanece a cobrança por uma explicação detalhada da OpenAI. Até que haja mais informações, a recomendação é tratar com cautela qualquer material proprietário armazenado no Codex.
OpenAI publica sua demonstração
A OpenAI divulgou sua demonstração para o problema de Navier-Stokes e informou que seus pesquisadores e agentes "não viram nenhum trabalho deles [Buckmaster e Alpöge] por qualquer meio até que fosse publicado publicamente - em particular, nenhum dado específico de usuário foi acessado para resolver este problema".
Ao mesmo tempo, a empresa acrescentou:
"Ainda que seja improvável, não podemos descartar que dados desidentificados derivados do uso de nossos produtos por eles tenham ajudado a melhorar nossos modelos."
We congratulate Levent Alpöge and Tristan Buckmaster on their remarkable mathematical work.
We (the researchers and the agents) did not see any of their work through any means until they released it publicly — in particular, no specific user data was accessed in order to solve… https://t.co/otJKRHnQgb
— OpenAI (@OpenAI) September 8, 2026
Assim, a OpenAI nega que dados específicos de Buckmaster e Alpöge tenham sido consultados durante a solução do problema, mas não descarta a possibilidade de dados desidentificados derivados do uso de seus produtos terem contribuído para o aprimoramento dos modelos.








