O estúdio responsável pelo MMORPG de fantasia Ashes of Creation, a Intrepid Studios, entrou em colapso no início deste mês.
O fechamento aconteceu menos de dois meses após o lançamento do jogo em acesso antecipado na Steam, deixando apoiadores e jogadores sem explicações.
Agora, novas acusações colocam o projeto no centro de uma disputa milionária. O youtuber NefasQS, conhecido como Caspar, entrevistou um dos principais investidores do jogo, Jason Caramanis.
Ele acusa Steven Sharif, fundador e diretor criativo da Intrepid Studios, de comandar uma fraude que teria durado anos. Caramanis, de 57 anos, construiu fortuna atuando com marketing multinível.
Ele ganhou destaque na empresa Jeunesse Global, sediada na Flórida, onde chegou ao cargo de Imperial Diamond Director. Segundo ele, investiu US$ 12,5 milhões do próprio bolso em Ashes of Creation e afirma que confiou em promessas que não foram cumpridas.
A principal acusação é que Steven Sharif nunca teria colocado dinheiro próprio na Intrepid Studios, apesar de declarar publicamente que investiu entre US$ 30 milhões e US$ 60 milhões ao longo dos anos.
De acordo com registros do QuickBooks obtidos recentemente, Sharif e seu sócio John Moore, listado como diretor financeiro, teriam recebido salários anuais de US$ 500 mil, mesmo com a empresa operando com dificuldades.
Relatórios públicos indicam que o estúdio levantou entre US$ 109 milhões e US$ 115 milhões, mas Caramanis disse que o valor real se aproxima de US$ 140 milhões ao considerar campanhas no Kickstarter, empréstimos do Commerce Bank, recursos do programa PPP e investimentos privados.
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Entre eles estaria um aporte de US$ 2 milhões feito por Tom Alkazin, amigo da família, que teria investido as economias da vida dele e da esposa.
Alkazin também atuou com marketing multinível e, no passado, fez um acordo com a Federal Trade Commission dos Estados Unidos para pagar US$ 1,2 milhão, além de perder um terreno na Califórnia e ficar proibido de participar de esquemas do tipo.
Segundo Caramanis, o maior investidor afetado seria Robert Dawson, empresário que ele apresentou a Sharif em Las Vegas. Entre 2022 e 2025, Dawson teria colocado cerca de US$ 80 milhões na empresa.
Caramanis diz que, durante nove anos, Sharif não entregou documentos financeiros, declarações de imposto ou registros contábeis completos aos investidores, mesmo com exigências contratuais.
Ele afirma que recebeu a promessa de ocupar uma cadeira no conselho em 2019, mas nunca participou de reunião alguma porque, segundo ele, nenhuma foi realizada.
Uma ação judicial movida para obter acesso aos registros não teria surtido efeito imediato. Os arquivos do QuickBooks só teriam sido entregues dias antes de uma transmissão ao vivo, após análise conduzida pelo contador de Dawson, Ryan Ogden.
A mansão na Califórnia usada por Sharif para divulgar atualizações do jogo também entrou na discussão. De acordo com Caramanis, o imóvel era alugado no início e depois foi comprado com recursos que teriam origem nos salários pagos pela própria empresa.
Em 2024, o financiamento do imóvel entrou em risco por causa de dívidas vinculadas ao Commerce Bank. Para evitar a perda da casa, investidores teriam contribuído com mais US$ 2 milhões.
Em 2025, as despesas mensais da Intrepid Studios ultrapassavam US$ 2,5 milhões, enquanto a receita com compras dentro do jogo variava entre US$ 150 mil e US$ 200 mil.
O prejuízo mensal girava em torno de US$ 2,3 milhões. Salários deixaram de ser pagos perto do lançamento do Alpha 2, que sofreu atraso de semanas. Bônus prometidos aos funcionários também não foram quitados.
A crise atingiu fornecedores. Em dezembro de 2025, a SADA Systems entrou com ação na Suprema Corte de Nova York cobrando US$ 852.630 por serviços da Google Cloud Platform não pagos desde setembro de 2022.
Os serviços foram cancelados em abril de 2025 por falta de pagamento. Quando questionado no Reddit, Sharif teria minimizado o valor da ação, dizendo que US$ 800 mil representavam apenas uma semana de despesas operacionais do estúdio.
Poucas semanas depois, a empresa não conseguiu processar a folha salarial e encerrou as atividades. O lançamento em acesso antecipado na Steam, em dezembro de 2025, passou a ser visto por Caramanis como movimento estratégico.
A liberação teria cumprido promessas feitas no Kickstarter e bloqueado pedidos de reembolso, além de gerar entre US$ 3 milhões e US$ 5 milhões com a venda estimada de 220 mil a 320 mil cópias.
Em janeiro de 2026, Robert Dawson teria proposto uma reestruturação com cortes de equipe e novo modelo de participação acionária. Sharif não aceitou.
Poucos dias depois, ele deixou o cargo de diretor criativo. Segundo Caramanis, o Commerce Bank enviou carta à Valve reivindicando cerca de US$ 3,7 milhões da receita obtida na Steam.
O valor teria sido usado para quitar empréstimo ligado à casa de Sharif, liberando entre US$ 1,5 milhão e US$ 1,6 milhão para ele. Sem esse dinheiro, a empresa ficou sem recursos para pagar funcionários.
Caramanis afirma possuir centenas de páginas de mensagens, contratos e registros financeiros que, segundo ele, comprovam as acusações.
Ele diz que novas ações judiciais devem ser movidas por investidores e parceiros, incluindo a TFE Games, que teria investido US$ 5 milhões.
Atualmente, Robert Dawson controla a propriedade intelectual de Ashes of Creation por meio de processo de execução e posição como credor garantido.
Ele avalia possibilidades para continuar o desenvolvimento do jogo, mas enfrenta resistência de parte da equipe técnica. Steven Sharif ainda não respondeu publicamente às acusações.
No Discord oficial do jogo, informou que deixou o cargo por não concordar com decisões do conselho. O caso agora deve avançar na Justiça.
Enquanto isso, investidores, funcionários e jogadores acompanham os desdobramentos de um dos episódios mais turbulentos envolvendo financiamento coletivo e desenvolvimento de MMORPG.








