O ex-CEO da Intel, Patrick Gelsinger, comentou que a empresa subestimou as GPUs da NVIDIA durante o período em que dominava o mercado de processadores.
Em participação no podcast All-In, ele também falou sobre a fase da Intel antes de seu retorno ao comando da companhia, relembrou a parceria com a Apple, comentou os riscos envolvendo Taiwan para a economia global e compartilhou sua visão sobre o futuro da computação quântica.
Gelsinger critica decisões da Intel antes de seu retorno
No início da conversa, Gelsinger falou sobre a situação da Intel antes de voltar ao cargo de CEO. Segundo ele, a empresa distribuiu cerca de US$ 100 bilhões em dividendos aos acionistas durante os cinco ou seis anos anteriores ao seu retorno. Na avaliação dele, esse dinheiro poderia ter sido usado para fortalecer a empresa.
"Nos cinco ou seis anos antes de eu voltar, a Intel distribuiu US$ 100 bilhões aos acionistas. O que eu não faria para ter outros US$ 100 bilhões no balanço."
Na cotação atual, o valor corresponde a aproximadamente R$ 550 bilhões. Gelsinger também comentou que a Intel passou cerca de uma década sem construir uma nova fábrica antes de sua chegada.
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Para ele, a empresa também deveria ter investido mais cedo em máquinas de litografia EUV, mesmo que o retorno financeiro não parecesse favorável naquele momento.
Segundo o ex-executivo, profissionais com formação técnica enxergariam a necessidade desses investimentos de forma diferente de gestores com foco apenas nos negócios.
Steve Jobs já preparava a transição do Mac anos antes
Durante a entrevista, Gelsinger relembrou o período em que trabalhou com Steve Jobs na migração dos computadores Mac para processadores Intel, anunciada em 2005. Ele descreveu o cofundador da Apple como alguém "incrível" e "implacável" nos negócios.
Segundo Gelsinger, a Intel acreditava que ajudaria a Apple a adaptar o macOS para a arquitetura x86. Porém, Jobs revelou que essa preparação já vinha sendo feita havia quatro versões do sistema operacional.
"Lembro da primeira conversa com Steve sobre migrar o sistema operacional dos chips PowerPC para os processadores Intel. Estávamos confiantes na nossa experiência com compiladores e sistemas operacionais e dissemos que ajudaríamos nessa transição. Steve respondeu que trabalhava nisso havia quatro versões do sistema."
Para Gelsinger, essa resposta mostrou que Jobs preparava as principais tecnologias da Apple para mudanças que ainda poderiam acontecer no futuro.
Intel não levou as GPUs da NVIDIA a sério
Outro ponto abordado foi o crescimento da NVIDIA. Gelsinger contou que, quando a Intel liderava o mercado de CPUs, a empresa não enxergava grande importância nas GPUs desenvolvidas por Jensen Huang. Segundo ele, a visão interna era de que aqueles produtos serviam principalmente para jogos.
"Quando estávamos no auge da nossa força com CPUs na Intel, meio que zombávamos dessas máquinas. Pensávamos: 'são placas gráficas, alguns jogadores gostam disso'."
Com o tempo, porém, a NVIDIA passou a construir um ecossistema de software em torno das GPUs, incluindo o CUDA e tecnologias voltadas ao processamento paralelo.
Na visão de Gelsinger, a evolução foi gradual, com melhorias constantes, e esse processo lembrou a forma como Steve Jobs desenvolvia produtos ao longo do tempo.
Ele também comentou que a adoção das GPUs em computação de alto desempenho ganhou força quando pesquisadores japoneses passaram a utilizá-las em sistemas HPC (High Performance Computing), muito além do mercado de jogos.

Ex-CEO comenta riscos envolvendo Taiwan
A entrevista também abordou a disputa entre Intel e TSMC na fabricação de chips. Segundo Gelsinger, quando assumiu novamente a liderança da Intel, a fabricante taiwanesa produzia cerca de cinco vezes mais wafers do que a empresa americana.
Ele também comentou os possíveis impactos de um bloqueio chinês a Taiwan. Segundo sua avaliação, a ilha possui reservas de energia para menos de três semanas.
Gelsinger citou uma reportagem recente do The Wall Street Journal e afirmou que uma interrupção no fornecimento de energia poderia desligar fábricas de semicondutores por cerca de 90 dias, já que elas não voltariam a operar imediatamente após uma paralisação.
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Na visão dele, um cenário desse tipo teria impacto econômico mundial superior ao da Grande Depressão.
O ex-CEO também comentou que a possibilidade de um novo bloqueio não deve ser tratada apenas como hipótese, já que, segundo ele, a China bloqueou o Estreito de Taiwan sete vezes nos últimos quatro anos.
Computação quântica pode ganhar força antes de 2030
Atualmente próximo da PsiQuantum, Gelsinger também falou sobre computação quântica. Segundo ele, essa tecnologia deverá abrir caminho para resolver problemas que hoje não podem ser processados por computadores tradicionais, com aplicações em áreas como química, biologia e logística.
Na avaliação do ex-executivo, os principais desafios técnicos já foram superados, incluindo o desenvolvimento de qubits, correção de erros e algoritmos. Agora, o foco estaria em ampliar a escala dessas soluções.
"Minha previsão é que veremos resultados importantes antes de 2030."
