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Co-criador de Fallout acredita que redes sociais mudaram a forma como jogadores veem os games

Desenvolvedor de jogos fala sobre mudanças na indústria e influência dos streamers e redes sociais no design de jogos.
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Veterano da indústria e co-criador de Fallout, Tim Cain voltou recentemente ao desenvolvimento de jogos em tempo integral.

Mesmo assim, ele continuou com seu canal pessoal no YouTube, como havia prometido quando retornou à Obsidian Entertainment em dezembro de 2025.

Foi justamente lá que ele comentou sobre o estado atual da indústria, falando sobre o crescimento dos influenciadores e "como a internet mudou o design dos jogos".

Cain comentou como viu a indústria dos games mudar ao longo dos anos, principalmente na forma como os jogos são apresentados ao público. Quem acompanha videogames sabe o quanto os estúdios pensam nas campanhas de marketing.

E quem cresceu jogando também viu a diferença entre a época das revistas e comerciais de TV e o cenário atual dominado por streamers, vídeos curtos e redes sociais.

Segundo Cain, a forma como os jogos eram vendidos nos anos 1980 era totalmente diferente. Depois, a internet mudou tudo nos anos 1990.

Nos anos 2000 veio outra transformação, seguida por mais mudanças na década de 2010. Sim, a indústria basicamente trocou de forma mais vezes do que atualização de launcher.

"Mais do que mostrar como jogar, eles recomendavam se você deveria comprar o jogo ou não", disse Cain sobre os youtubers do começo dos anos 2010.

"De forma diferente dos jornalistas. Os jornalistas falavam: 'Olha o jogo, olha esses recursos, ele faz isso, é parecido com tal jogo'. Depois davam uma nota, tipo '8 de 10 porque tinha alguns bugs, mas gostamos dele'."

Já os influenciadores, segundo ele, seguiram outro caminho.

"Eles falavam: 'Aqui está um jogo. Eu adoro isso. É para você', e mostravam os melhores momentos."

Cain comentou que as publishers passaram então a enviar cópias dos jogos para influenciadores e canais online com a mesma prioridade dada à imprensa especializada.

Depois disso, Cain explicou como os desenvolvedores começaram a pensar em quais partes do jogo funcionariam bem em transmissões e vídeos. Isso incluía cenas cinematográficas, armas, mecânicas e chefes marcantes.

"Você não queria só uma explosão. Você queria uma explosão grande, bonita, colorida e que funcionasse bem em clipes", comentou.

A lógica era simples: alguém vê aquele trecho em um vídeo curto e passa a ter vontade de jogar. Cain comparou essa mudança com a época em que desenvolvedores se preparavam para entrevistas com jornalistas.

Antes, eles pensavam em frases que poderiam virar manchetes ou citações em reportagens. Hoje, segundo ele, a preocupação virou outra: "Que parte do nosso jogo vai gerar bons clipes para influenciadores mostrarem?" em redes como TikTok, Instagram, X e YouTube.

O desenvolvedor também comentou sobre o comportamento de parte do público atualmente. Segundo ele, muitos jogadores já não procuram influenciadores apenas para ver análises, mas para receber opiniões prontas sobre os jogos.

"Agora estamos nos anos 2020, e muitos jogadores nem procuram influenciadores por reviews. Eles procuram para saber o que pensar sobre os jogos", disse Cain.

"As pessoas não formam opiniões a partir dos vídeos online, elas recebem opiniões do canal que estão assistindo."

Ele comentou que viu as análises mudarem bastante ao longo do tempo. Antes, reviews comparavam elementos como combate, puzzles e diálogos.

Hoje, segundo ele, muitos conteúdos seguem um tom mais direto, com frases como "esse jogo é lento, ruim e feito para casuais, então pule".

Para Cain, muita gente encontra um criador de conteúdo de que gosta e passa a adotar a mesma visão daquela pessoa. Mesmo assim, Cain acredita que essa mudança não é totalmente negativa.

Segundo ele, sempre existiram críticos populares que atraíam públicos com gostos parecidos. A diferença é que antes esses críticos vinham de grandes veículos, enquanto hoje qualquer pessoa pode encontrar influenciadores que pensam da mesma forma.

"O lado negativo disso", continuou Cain, "é que cada vez mais pessoas parecem estar abrindo mão do próprio julgamento para seguir o de pessoas online."

Ele disse que percebe isso até em seu canal, quando recebe vários comentários quase idênticos. Em muitos casos, segundo ele, os usuários apenas repetem frases de influenciadores, às vezes até fora de contexto.

As preocupações de Cain também passam pelo desenvolvimento dos jogos. Segundo ele, alguns estúdios passaram a pensar mais em agradar determinados influenciadores do que em criar o jogo que realmente gostariam de fazer.

O desenvolvedor deixou claro que não segue essa linha, mas disse já ter ouvido esse tipo de conversa dentro da indústria.

"Tenho curiosidade porque estamos em 2026 e não faço ideia de como serão os anos 2030", comentou Cain.

"Estou preocupado porque isso pode seguir dois caminhos."

Segundo ele, um cenário seria o público ficar ainda mais preso em grupos e bolhas ligadas a poucos influenciadores. O outro seria uma nova geração cansar desse modelo, das classificações e da necessidade de colocar tudo em categorias fechadas.

Cain encerrou dizendo que a internet faz essas mudanças acontecerem de forma muito rápida e intensa. Por isso, ele acredita que ainda é difícil prever como a relação entre design de jogos, redes sociais e influenciadores vai evoluir na próxima década.

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