Um novo estudo pode trazer um elemento importante para a discussão sobre a possível origem do Kimi K3, modelo da chinesa Moonshot.
Pesquisadores encontraram uma vulnerabilidade em sistemas usados para proteger os registros internos de raciocínio de modelos de inteligência artificial e usaram a falha para analisar o comportamento do Kimi K3.
A questão está entre os assuntos mais controversos do setor de IA e ganhou uma dimensão geopolítica. A principal dúvida é se a Moonshot teria usado técnicas de destilação para desenvolver o Kimi K3 a partir de modelos da Anthropic.
Uma das principais dificuldades para essa hipótese é o intervalo de cerca de duas semanas entre o lançamento público do Fable e do Kimi K3.
Para muitos críticos, esse período seria curto demais para uma operação ampla de destilação. Uma vulnerabilidade recém-descoberta em APIs, porém, pode fornecer um novo elemento para essa discussão.
We can finally talk about it:
We found a way to extract hidden reasoning of frontier models using a vulnerability in the APIs of every frontier AI company.
We verified that our reasoning token count matches billed API thinking tokens 1:1 for most of the prompts we queried. pic.twitter.com/S7wN8aP3X7
— Alexander Panfilov (@kotekjedi_ml) August 11, 2026
Falha expõe registros internos de raciocínio
Modelos de IA costumam processar informações internamente antes de gerar uma resposta. Essa etapa, conhecida como cadeia de raciocínio, normalmente fica protegida em um bloco de texto criptografado, enquanto o usuário recebe apenas a resposta final.
Esses blocos criptografados são enviados de volta ao navegador durante a comunicação com os servidores, em parte para reduzir o uso de memória nos servidores.
Um novo estudo encontrou uma vulnerabilidade nesse sistema. Segundo os pesquisadores, empresas como OpenAI, Anthropic e Google usaram chaves de criptografia globais em seus ecossistemas. O problema vai além do acesso aos dados.
Modelos mais avançados, como o Claude Opus, são treinados para recusar pedidos que tentem revelar seus pensamentos internos. Um modelo mais simples e barato, como o Claude Haiku, porém, pode não ter as mesmas barreiras.
Ao copiar o bloco criptografado produzido pelo Opus e enviá-lo ao Haiku, os pesquisadores conseguiram fazer com que o modelo mais simples decodificasse o conteúdo e exibisse os pensamentos exatos do modelo mais avançado.
O estudo aponta três riscos principais:
- Vazamento de dados e credenciais: desenvolvedores costumam publicar registros de sessões na internet sem saber que informações sensíveis podem estar dentro dos blocos criptografados. Os pesquisadores analisaram registros públicos e encontraram 367 informações pessoais e 182 credenciais secretas, incluindo chaves de API e senhas.
- Contorno de mecanismos de segurança: mesmo quando uma IA recusa um pedido perigoso na resposta final, o processo interno decodificado pode revelar as etapas prejudiciais consideradas pelo modelo.
- Injeções ocultas: comandos maliciosos podem ser inseridos diretamente nos blocos criptografados e usados para interferir em fluxos de trabalho com IA.
Cross-model portability means Haiku 4.5 can read Opus 4.8’s thoughts.
Well, if you take Opus thought, do a bit of jailbreaking, you can make Haiku transcribe the Opus' raw reasoning verbatim, without ever attacking it directly.
The same trick works with OpenAI and Gemini… pic.twitter.com/QzVn1H5liB
— Alexander Panfilov (@kotekjedi_ml) August 11, 2026
Kimi K3 reproduz padrões do Claude Opus
Os autores do estudo também investigaram se esse tipo de acesso poderia ter sido usado para técnicas de destilação de raciocínio sem a necessidade de quebrar a criptografia.
Como teste, eles forneceram ao Kimi K3 apenas um fragmento equivalente a 1% do raciocínio decodificado do Claude Opus 4.8. O comportamento do Kimi K3 mudou de forma acentuada depois disso.
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Tanto o processo de raciocínio quanto a resposta final passaram a apresentar características de estilo e redação semelhantes às do Claude.
De acordo com os pesquisadores, trechos específicos de raciocínio do Claude e do GPT são até cerca de seis ordens de magnitude mais fáceis de extrair do Kimi K3 do que do modelo seguinte mais próximo analisado no estudo.
A pesquisa também identificou uma probabilidade estatística incomumente alta de o Kimi K3 prever e continuar textos do Claude quando comparado a outros modelos de pesos abertos, como o DeepSeek-V4-Flash.
Para os autores, esse comportamento indica uma forte compatibilidade entre o Kimi K3 e os padrões de raciocínio do Claude Opus.
Isso não constitui, por si só, uma prova definitiva de que a Moonshot tenha feito destilação dos modelos da Anthropic. Os próprios pesquisadores reconhecem que uma confirmação provavelmente dependeria de evidências adicionais.
Disputa entre China e Estados Unidos
A discussão acontece em meio à disputa tecnológica entre China e Estados Unidos. A Anthropic e integrantes do governo de Donald Trump já acusaram a Moonshot de usar modelos da Anthropic como base para desenvolver o Kimi K3 por meio de técnicas de destilação.
O governo dos Estados Unidos também mantém há algum tempo suspeitas de que engenheiros chineses levem servidores ou discos rígidos com modelos para países considerados mais favoráveis e usem técnicas de aprendizado por reforço com GPUs da NVIDIA para ampliar as capacidades desses sistemas.
Segundo acusações feitas recentemente por um integrante do governo Trump, a Moonshot teria acesso oculto a servidores equipados com GPUs NVIDIA GB300 e também teria conseguido acessar unidades adicionais por meio da Tailândia.
Nesse cenário, o novo estudo acrescenta uma evidência técnica à discussão sobre a possível relação entre o Kimi K3 e os modelos da Anthropic, mas não encerra a questão sobre a origem do modelo.
